A Humanização no Atendimento Pós-AVC e seu Impacto nos Desfechos Clínicos: Entre Neuroplasticidade, Escuta e Propósito

O acidente vascular cerebral (AVC) é uma das principais causas de incapacidade adquirida no mundo. No entanto, o que começa com um evento neurológico agudo frequentemente evolui para um processo complexo de perdas simbólicas, emocionais e existenciais. Mais do que tratar lesões, o desafio real está em restaurar sentido, identidade e funcionalidade.

A prática clínica e a literatura científica convergem para um ponto essencial: o cuidado centrado na pessoa, baseado em comunicação empática, escuta ativa e educação em saúde, é capaz de transformar desfechos clínicos.

Depois da alta, o silêncio

A transição do ambiente hospitalar para o domicílio é, muitas vezes, marcada por dúvidas, inseguranças e abandono. Segundo a Pesquisa Nacional de Reabilitação (2021), muitos pacientes referem não saber o que fazer após a alta hospitalar. A ausência de orientações claras contribui para desmotivação, piora funcional e maior risco de reinternações.

Escutar é intervir

Estudos mostram que a *comunicação empática aumenta em até 19% a adesão terapêutica* (Zolnierek & DiMatteo, 2009). Quando o paciente sente-se ouvido, compreendido e respeitado, ativa-se no cérebro um circuito pré-frontal medial relacionado à tomada de decisões e comportamento pró-saúde (Decety & Lamm, 2006).

Além disso, a escuta qualificada favorece o vínculo terapêutico, que por si só já modula respostas fisiológicas e emocionais — especialmente em condições crônicas como o pós-AVC.

Neuroplasticidade e motivação: bases para o recomeço

Como nos ensinam Kleim e Jones (2008), a neuroplasticidade depende de estímulo, repetição, relevância e contexto. A motivação é parte ativa desse processo. Pacientes que entendem como o cérebro pode se reorganizar tornam-se mais confiantes e engajados no próprio processo de reabilitação.

Educar o paciente e a família sobre os mecanismos da recuperação cerebral não é apenas informar — é inspirar ação com base em ciência.

O luto e o novo propósito

Após o AVC, muitas perdas vão além da motricidade: a perda da independência, da sexualidade, do papel familiar ou profissional. A psicologia do luto nos ensina que reconhecer essas perdas é o primeiro passo para superá-las. Mas, tão importante quanto isso, é ajudar o paciente a estabelecer novos propósitos de vida.

Estudos em motivação intrínseca (Ryan & Deci, 2000) e espiritualidade em saúde (Puchalski et al., 2009) apontam que o senso de significado acelera a recuperação, promove reorganização neural e melhora a qualidade de vida.

Cuidar além da técnica

Durante minha trajetória com neuromodulação e reabilitação de pacientes pós-AVC, percebi que as técnicas mais avançadas funcionam melhor quando aplicadas com empatia, escuta e sentido.

Como diz um dos meus pacientes:

"A cada sessão, não era só meu braço que se movia um pouco mais. Era minha vontade de viver que voltava."

Essa é a medicina que acredito. Uma medicina que conecta ciência e humanidade, que trata o corpo, mas não esquece da história, do medo e dos sonhos de quem reabilita.

Referências

1. Zolnierek KBH, DiMatteo MR. Physician communication and patient adherence to treatment: a meta-analysis. Med Care. 2009;47(8):826–34.

2. Decety J, Lamm C. Human empathy through the lens of social neuroscience. TWSJ. 2006;6:25–39.

3. Kleim JA, Jones TA. Principles of experience-dependent neural plasticity: implications for rehabilitation after brain damage. J Speech Lang Hear Res. 2008;51:S225–39.

4. Ryan RM, Deci EL. Self-determination theory and the facilitation of intrinsic motivation, social development, and well-being. Am Psychol. 2000;55(1):68–78.

5. Puchalski CM, Vitillo R, Hull SK, Reller N. Improving the spiritual dimension of whole person care: reaching national and international consensus. J Palliat Med. 2009;12(10):885–904.

6. Wade DT. Rehabilitation—a new approach. Part four: a new paradigm, and its implications. Clin Rehabil. 2005;19(1):1–8.

7. Pesquisa Nacional de Reabilitação. Brasil, Ministério da Saúde. 2021.

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