Neuropatia Periférica: o que a ciência já sabe — e o que ainda precisamos avançar

A neuropatia periférica é uma condição frequente, muitas vezes incapacitante, e ainda cercada de frustração tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde. Apesar dos avanços no diagnóstico e no entendimento fisiopatológico, uma parcela significativa das pessoas continua convivendo com dor, dormência, fraqueza ou alterações autonômicas por longos períodos.

Uma revisão clínica recente publicada no JAMA reforça esse paradoxo: sabemos mais sobre a neuropatia periférica do que nunca — mas ainda tratamos menos do que gostaríamos.

O que é neuropatia periférica?

Neuropatia periférica é o termo utilizado para descrever lesão ou disfunção dos nervos periféricos, responsáveis por transmitir informações sensoriais, motoras e autonômicas entre o corpo e o sistema nervoso central.

Dependendo dos nervos acometidos, o paciente pode apresentar:

  • dormência e perda de sensibilidade;

  • dor em queimação, choque ou pontadas;

  • fraqueza muscular;

  • alterações da pressão arterial;

  • distúrbios gastrointestinais;

  • disfunções urinárias ou sexuais.

Ou seja, neuropatia não é apenas dor nos pés, nem uma condição homogênea.

Por que os sintomas costumam começar nos pés?

A forma mais comum é chamada de neuropatia dependente do comprimento.

Os nervos mais longos do corpo — especialmente os que se estendem até os pés — são mais vulneráveis a agressões metabólicas, tóxicas ou inflamatórias.

Por isso, muitos pacientes descrevem o padrão clássico de sintomas em “meias e luvas”, com início distal e progressão gradual.

O que acontece no nervo?

Do ponto de vista fisiopatológico, a revisão do JAMA descreve dois mecanismos principais, que podem coexistir:

Lesão da mielina, a camada isolante do nervo, levando à lentificação ou falha da condução do impulso nervoso.

Degeneração do axônio, o “fio” responsável por transmitir a informação neural, resultando em perda direta da comunicação entre o nervo e o sistema nervoso central.

Essa distinção ajuda a explicar por que pacientes com diagnósticos semelhantes podem responder de forma tão diferente aos tratamentos.

Existem mais de 200 causas descritas de neuropatia periférica. Entre as mais comuns estão:

  • diabetes mellitus;

  • deficiência de vitamina B12;

  • consumo crônico de álcool;

  • quimioterapia;

  • doenças autoimunes;

  • alterações genéticas.

Mesmo após investigação adequada, cerca de um quarto dos casos permanece sem causa definida, reforçando a complexidade da condição.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado em uma escuta cuidadosa da história do paciente e em um exame neurológico bem conduzido.

Exames laboratoriais e estudos neurofisiológicos devem ser solicitados de forma direcionada. A própria literatura alerta: mais exames não significam necessariamente mais respostas.

E o tratamento?

O tratamento atual baseia-se em dois pilares:

1. correção da causa subjacente, quando possível;

2. controle sintomático, especialmente da dor neuropática.

Os medicamentos disponíveis podem aliviar os sintomas, mas a literatura científica reconhece que:

  • a resposta costuma ser parcial;

  • muitos pacientes permanecem sintomáticos;

  • a reversão completa da lesão nervosa é incomum.

Isso explica por que tantas pessoas relatam sensação de tratamento incompleto.

O que a ciência ainda não resolve totalmente

Embora o conhecimento tenha avançado, o modelo tradicional ainda apresenta limitações importantes. A neuropatia periférica não envolve apenas o nervo lesionado, mas todo o sistema nervoso, incluindo mecanismos de plasticidade, sensibilização central e regulação autonômica.

A dor neuropática crônica deixa de ser apenas um sinal de lesão e passa a refletir uma reorganização do sistema nervoso.

Conclusão

A neuropatia periférica é comum, complexa e frequentemente subtratada. A ciência avançou na compreensão dos mecanismos e no diagnóstico, mas o desafio terapêutico permanece.

Cuidar de pessoas com neuropatia exige mais do que controlar sintomas: exige escuta, individualização e uma visão ampliada do funcionamento do sistema nervoso como um todo.

Referência

Mauermann ML, Staff NP. Peripheral Neuropathy: A Review. JAMA.

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